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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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ISBN:
Editora: 12min
É muito comum que alguém te recomende uma série com a maior empolgação do mundo, você assiste aos dois primeiros episódios e desliga achando que não era nada de mais. Meses depois, sem saber direito como chegou ali, você está maratonando, rindo das piadas e falando dos personagens como se fossem gente conhecida. Friends, The Office, How I Met Your Mother entre milhares de outros exemplos já sofreram com a frase "só fica bom depois da primeira temporada". O roteiro não virou outro de uma hora para outra. Quem mudou mesmo que um pouquinho, foi você.
A gente costuma chamar isso de gosto adquirido, e tem um certo charme em descobrir que o gosto adquirido não é só uma expressão bonita. É um fenômeno amplamente estudado, com nome cientifico e tudo mais.
Em 1968, um psicólogo chamado Robert Zajonc resolveu testar uma ideia que parecia óbvia demais para ser verdade: será que a gente passa a gostar das coisas só de ver muito? Ele mostrou para um grupo de pessoas uma série de palavras sem sentido, inventadas, e disse que eram adjetivos em turco. Algumas palavras apareciam uma vez só, outras apareciam até vinte e cinco vezes. Depois, perguntou a cada pessoa se aquela palavra significava algo bom ou algo ruim.
O resultado foi: quanto mais vezes a pessoa tinha visto uma palavra, mais ela apostava que aquilo significava algo bom. Sem motivo. As palavras não queriam dizer nada. A única diferença entre uma e outra era o número de vezes que tinham passado na frente dos olhos. Zajonc batizou o fenômeno de efeito de mera exposição, e o nome quase autoexplicativo significa: não precisa de razão, não precisa de argumento, basta o contato.
O Kahneman, no livro Rápido e Devagar, explica que isso que acontece na nossa mente é um conceito que ele chama de facilidade cognitiva. Quando algo já é familiar, o cérebro processa aquilo com menos esforço. E ele interpreta esse alívio como um sinal de que está tudo bem ali. Familiar vira sinônimo de seguro, e seguro vira sinônimo de bom. Uma hipótese é que esse atalho venha de muito longe, de uma época em que o desconhecido podia ser de fato perigoso e o conhecido era, pelo menos, algo que já não tinha feito mal a ninguém.
Em 1992, dois pesquisadores chamados Richard Moreland e Scott Beach quiseram ver se isso valia também para pessoas, não só para palavras. Eles combinaram com quatro mulheres para que elas frequentassem uma aula de faculdade com mais de cem alunos. A única instrução era esquisita de tão modesta: chegar um pouco antes, sentar onde todo mundo pudesse ver, assistir à aula em silêncio e ir embora. Sem falar com ninguém. Sem se apresentar. Nada.
A diferença entre elas era só uma. Uma não foi a nenhuma aula. Outra foi a cinco. Outra a dez. A última foi a quinze. No fim do semestre, os alunos viram fotos das quatro e responderam o que achavam de cada uma. Quase ninguém lembrava de tê-las visto. Mesmo assim, quanto mais vezes uma mulher tinha estado na sala, mais simpática, mais querida e mais inteligente os alunos achavam que ela era. Até a nota de atratividade subiu, de 3,62 para 4,38, da que nunca apareceu para a que apareceu quinze vezes. Elas não fizeram absolutamente nada. Só ocuparam o mesmo espaço por um tempo.
É mais ou menos o que acontece com aquele colega de trabalho que no começo parecia insuportável e, sem você perceber em que momento, virou alguém com quem você senta para almoçar todo dia.
Tem um detalhe desse efeito que é quase uma pegadinha do cérebro com a gente mesmo. Você passa a vida vendo o seu rosto no espelho, ou seja, espelhado, invertido. Seus amigos veem o seu rosto do jeito que ele é de verdade, não invertido. Em um estudo de 1977, pesquisadores mostraram às pessoas duas versões da própria foto, a normal e a espelhada, e perguntaram qual elas preferiam.
As pessoas escolhiam a versão espelhada, a do espelho. Os amigos delas, olhando as mesmas fotos, preferiam a versão normal. Cada lado gostava mais da versão que estava acostumado a ver. Por isso tanta gente acha que sai estranho em foto. Não é que você saia mal. É que a foto mostra a sua cara como o mundo vê, e não como você vê todo dia ao escovar os dentes. Você simplesmente teve menos exposição a esse rosto.
Aqui entra a parte que segura os pés no chão. A repetição não é mágica. Ela funciona bem quando vem aos poucos e quando aquilo não é nem irritante nem ameaçador. Todo mundo já teve uma música que adorava e que de tanto tocar no rádio acabou perdendo a graça. Existe um ponto em que o contato deixa de aproximar e começa a cansar. O efeito tem um teto, e ultrapassar esse teto não acelera o carinho, só desgasta.
Talvez seja por isso que as coisas que a gente mais ama costumam ser as que foram chegando devagar, no seu tempo, sem pressa de provar nada.
Se você está conhecendo gente nova e tem a impressão de que não rolou química, vale lembrar que a primeira impressão é só a primeira de muitas. Boa parte das amizades mais sólidas não começou com um estalo. Começou com presença repetida, encontros sem grande motivo, até o desconhecido virar familiar.
Se você desistiu de algo cedo demais, seja um livro, um estilo de música, um esporte ou uma cidade, talvez não tenha sido falta de afinidade. Talvez tenha sido só falta de tempo de tela. Dar uma segunda chance, com calma, costuma mudar o veredito mais do que a gente imagina.
E se você cria ou apresenta alguma coisa para outras pessoas, esse efeito ajuda a entender por que ninguém se apaixona por uma ideia no primeiro contato. O carinho vem da convivência, não da estreia.
Se ficou com vontade de entender melhor como a sua cabeça decide o que é bom antes mesmo de você pensar, o resumo de Rápido e Devagar, do Daniel Kahneman, está no 12min e cabe num intervalo de café.
No fim, o efeito de mera exposição é uma boa notícia disfarçada de curiosidade científica. Ele significa que muito mais coisa está ao alcance de virar algo que você ama do que você costuma supor. Às vezes a única distância entre você e um gosto novo não é talento, nem sorte, nem afinidade imediata. É só contato suficiente, feito com paciência.
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